Apresentação

O CORPOCIDADE 5 promove o encontro de professores, pesquisadores, artistas, estudantes e interessados em geral para construir diferentes possibilidades de reflexão sobre as relações entre corpo e cidade, a partir de um conjunto de ideias, a ser agenciado coletivamente, de gestos urbanos.

Gestos urbanos inicialmente pensados a partir de uma constelação de referências, em constante atualização, que abrem frestas de compreensão do complexo emaranhado subjacente à instauração das dinâmicas urbanas em que estamos todos implicados. Referências cujos pressupostos e contextos, embora diferentes, apontam para enfoques correlatos, entretanto distintos do senso comum, ao deslocar a ideia de gestos de um sentido puramente etológico para aquele epistemológico.

O CORPOCIDADE 5 propõe explicitar a potência crítica, criativa, analítica e política dos gestos urbanos, tomando por órbita nesta constelação a ideia de gestos-fio formulada por Ana Clara Torres Ribeiro como aqueles necessários à trama da urbanidade:

“pois costuram saberes à co-presença, estimulando a superação do prestígio ainda mantido pelas leituras mecanicistas e funcionalistas da vida urbana. (…) Dos gestos-fio ‘impensados’ podem advir descobertas radicalmente novas e vínculos imprevisíveis, o que também é necessário à tessitura do social, especialmente num período caracterizado pelo esgarçamento de relações sociais.”

O CORPOCIDADE 5 propõe investigar gestos urbanos a partir de quatro planos de atravessamento, que tanto promovem as emergências desses gestos quanto expressam seus tensionamentos: visibilidades, liminaridades, performatividades e temporalidades.

 

“Toda a forma seria, pois, o trabalho dialético, duplamente orientado, de um aspecto manifesto e das suas solicitações latentes. Toda a estase deveria ser pensada segundo a dinâmica de estados transitórios que se cristalizam de quando em quando. O gesto? Uma ‘dupla ação‘. O presente? Uma potência do tempo em que atuam conjuntamente o antecedente e o consequente, a memória e a protensão. A presença? Quase uma titanomaquia de cada instante: uma luta com eficazes ausências.”

Georges Didi Huberman

gestos-fio reafirmam a sociabilidade, possibilitando o afloramento de fundamentos da vida social, distantes a priori de qualquer tipo de fundamentalismo.”

Ana Clara Torres Ribeiro

“atos, gestos e atuações, entendidos em termos gerais, são performativos, no sentido de que a essência ou identidade que por outro lado pretendem expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corpóreos e outros meios discursivos. “

Judith Butler

“Habitar, circular, falar, ler, ir às compras ou cozinhar, todas essas atividades parecem corresponder às características das astúcias e das surpresas táticas: gestos hábeis do ‘fraco’ na ordem estabelecida pelo ‘forte’, arte de dar golpes no campo do outro, astúcia de caçadores, mobilidades nas manobras, operações polimórficas, achados alegres, poéticos e bélicos.”

Michel de Certeau

“Podemos dizer que os provérbios são ruínas de antigas narrativas, nas quais a moral da história se enreda em um gesto, como a hera abraça um muro.”

Walter Benjamin

“qual é o estatuto ontológico do gesto? Benjamin definiu sempre o meio puro por figuras paradas, em pausa, de interrupção, como se só houvesse consciência negativa. Isso significaria que o gesto seria um não ser, que nada nele se tornaria presença? Se assim for, em qual sentido poderíamos então falar de gesto?”

Ana Clara Torres Ribeiro

“Na dimensão política, os gestos enquanto saberes/poderes caracterizam as diferentes formações históricas e sociais. Eles têm a capacidade de afetar (afeto), não apenas no comando de palavras de ordem, não pelas contradições que expressam, mas, pelas linhas de fuga criativas que atravessam as formações sociais e promovem rupturas a-significantes e evoluções não lineares. Os gestos pressupõem intervalos.”

Pasqualino Magnavita

“uma teoria do relato é indissociável de uma teoria das práticas (…) isto seria sobretudo restituir importância ‘científica’ ao gesto tradicional (é também uma gesta) que sempre narra as práticas.”

Michel de Certeau

“a teoria geral dos gestos é competente para movimentos não satisfatoriamente explicáveis por outros tipos de teoria.”

Vilem Flusser

“se perceberá claramente que toda a obra de Kafka representa um código de gestos, cuja significação simbólica não é de modo algum evidente, desde o início, para o próprio autor; eles só recebem essa significação depois de inúmeras tentativas e experiências, em contextos múltiplos.”

Walter Benjamim

“o que é o gesto? Uma observação de Varrão contém uma indicação preciosa. Ele inscreve o gesto na esfera da ação, mas o distingue claramente do agir (agere) e do fazer (fazere). (…) O que caracteriza o gesto é que, nele, não se produz, nem se age, mas se assume e se suporta.”

Giorgio Agambem

“ações que interrompem a cotidianidade inscrevendo a co-presença em contextos que a renegam – implicam em sincronização de gestos e na representação de papeis que não são esperados e nem programados.”

Ana Clara Torres Ribeiro

“os gestos se cruzam se entrelaçam e fazem de diferentes gestualidades uma heterogênese. Vale salientar que todas as artes são primordialmente artes gestuais e que visam à criação de gestos em grau, em nível ou de diferente natureza.”

Pasqualino Magnavita

“a gesta ambulatória joga com as organizações espaciais, por mais panópticas que sejam: ela não é estranha (não se passa alhures) nem conforme (não recebe delas a sua identidade). Aí ela cria algo de sombrio e equívoco. Ela aí insinua a multidão de suas referências e citações.”

Michel de Certeau

“o drapeado, o ‘acessório em movimento’, segundo Warburg, acompanha todas as categorias propostas por Maurice Emmanuel, desde os gestos ‘rituais e simbólicos’ até os gestos ‘concretos’ ou ‘decorativos’, desde os gestos ‘mecânicos’ e ‘expressivos’ até os chamados gestos ‘orquéstricos’. Também não nos surpreende ver o tema dionisíaco – mênades e bacantes – impregnar de sua desmedida o belo comedimento dos passos, saltos e posições clássicos. O corpo dançante, com seu vocabulário gestual reprodutível, dá lugar a uma coreografia mais misteriosa, mais “primitiva” e pulsional, uma coreografia de movimentos irreprodutíveis, ligados a rituais violentos demais para que possam ser reconstituídos sob a batuta de um diretor do corpo de baile da Ópera de Paris.”

Georges Didi Huberman

“os atos e gestos, os desejos articulados e postos em ato criam a ilusão de um núcleo interno e organizador do gênero , ilusão mantida discursivamente com o propósito de regular a sexualidade nos termos da estrutura obrigatória da heterossexualidade reprodutora.”

Judith Butler

gesto é um movimento no qual se articula uma liberdade, a fim de se revelar ou se velar para o outro. (…) E inclui o receptor do gesto na competência da teoria. Não é possível definir gesto mais estreitamente sem perder algo essencial. Porque a definição do gesto implica ser ela uma presença ativa no mundo. Aliás, a própria etimologia do termo sugere este fato: ‘gesta’ – feitos.”

Vilem Flusser

“o gesto é a exibição de uma medialidade, o tornar visível um meio como tal. (…) assim, no gesto, é a esfera não de um fim em si, mas de uma medialidade pura e sem fim que se comunica aos homens.”

Giorgio Agamben

“no cotidiano e no lugar, gestos-fio costuram saberes à co-presença, estimulando a superação do prestígio ainda mantido pelas leituras mecanicistas e funcionalistas da vida urbana. Apresenta-se, neste momento, mais um pequeno episódio: num ônibus cheio e trepidante, uma aluna de escola pública levanta-se e cede o seu lugar, num gesto espontâneo e gracioso, a uma senhora idosa. O gesto é registrado e elogiado por duas outras senhoras, que até então não se conheciam. Sorrindo, citam Gonzaguinha: ‘… a vida é bonita, é bonita e é bonita!’ “

Ana Clara Torres Ribeiro

“o gesto tem um começo determinável e um fim determinável. Esse caráter fechado, circunscrevendo numa moldura rigorosa cada um dos elementos de uma atitude que, não obstante, como um todo, está inscrita num fluxo vivo, constitui um dos fenômenos mais fundamentais do gesto. Resulta daí uma conclusão importante: quanto mais frequentemente interrompemos o protagonista de uma ação, mais gestos obtemos.”

Walter Benjamin

Formato

O CORPOCIDADE 5 propõe aos participantes uma experiência de estudo intensivo da ideia de gestos urbanos, para construir coletivamente sentidos de relação entre corpo e cidade, distribuindo-se em grupos correspondentes a cada um dos quatro planos de atravessamento desse tema: visibilidades, liminaridades, performatividades e temporalidades.

O CORPOCIDADE 5 inicia-se com um Seminário Público composto de quatro mesas redondas, sobre cada um dos planos de atravessamento do tema geral, para introduzir o trabalho dos quatro Grupos de Estudo (GE). Complementam a programação do CORPOCIDADE 5 Conferências sobre temas correlatos para nutrir os debates.

A atividade dos GEs inclui dois dias de trabalho a partir de metodologias próprias estabelecidas pelos seus respectivos coordenadores, membros do Comitê Científico em cada plano de atravessamento. Após a seleção das propostas de agenciamento, os trabalhos dos GEs, a critério dos coordenadores de cada grupo, poderão se iniciar antes do encontro presencial, por meios digitais. Não há previsão de apresentação oral de trabalhos individuais. O encontro culmina com o debate coletivo sobre as sínteses transitórias alcançadas por cada GE, no Seminário de Articulação do último dia.

Histórico

Na 1ª edição [2008], o encontro CORPOCIDADE testou um formato híbrido entre acadêmico e artístico, que admitia inscrições de propostas teóricas de comunicações e de propostas artísticas de intervenção urbana, cuja seleção ficou a cargo do Comitê Científico Artístico formado por professores e artistas, também responsáveis pela coordenação dos debates de cada Sessão Temática durante o encontro. Desse modo, além de concretizarmos a desejada articulação entre teoria e arte, também estendemos desdobramentos do evento para a própria cidade, onde foram realizadas as 16 intervenções urbanas, no âmbito do evento 10 DIAS de cidade e cultura (FUNCEB), cujo calendário incorporou o CORPOCIDADE.

Na 2ª edição [2010], optamos por uma dinâmica de debate sobre “conflito e dissenso no espaço público” que incluísse o processo de construção da própria matéria a ser debatida, a partir de experiências coletivas mobilizadas pelos contextos da Maré (RJ) e de Alagados (Salvador). Neste formato, o debate final foi a instância pública da experiência que o gestou e cada experiência foi antecedida pela apresentação cênica das obras coreográficas Pororoca, da coreógrafa Lia Rodrigues (RJ) e SIM – ações integradas de consentimento para ocupação e resistência, do coreógrafo Alejandro Ahmed e Grupo Cena 11, cujas propostas estéticas já tematizavam as questões de conflito e negociação no espaço e que atuaram como provocações e ponto de ignição dos trabalhos do grupo.

A 3a edição [2012], em articulação ao 3º Seminário Cidade & Cultura (Pró-Cultura – CAPES/MinC) e ao início da pesquisa Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea, enfocou as possibilidades de apreensão corporal da cidade e seus modos de compartilhamento e transmissão, tensionando as noções de corpo, cidade e cultura a partir da noção de experiência. Para cumprir o propósito de abordagem da experiência urbana pelo seu duplo caráter de prática de mapeamento corporal e narrativa cartográfica, o encontro integrou 3 atividades diferentes e complementares: OFICINAS – experiências metodológicas em áreas específicas da cidade de Salvador, destinadas a testar procedimentos para apreensão da cidade contemporânea; seminário de articulação – apresentação das experiências metodológicas destinada ao exercício de reflexão crítica sobre as oficinas realizadas; e seminário público– atividade aberta à participação de todos que reuniu pesquisadores de diferentes áreas.

Na 4a e última edição [2014] o encontro marcou o encerramento da pesquisa Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea [PRONEM – FAPESB/CNPq], desenvolvida pelo grupo Laboratório Urbano (PPGAU/FA-UFBA) ao longo de 3 anos. A pesquisa Experiências metodológicas para compreensão da complexidade da cidade contemporânea investigou metodologias de apreensão da complexidade das cidades no atual contexto de espetacularização urbana, buscando articular 3 linhas de abordagem que costumam ser tratadas separadamente: historiografia, apreensão crítica e experiência estética-corporal. Tomando a noção de experiência como princípio norteador desta investigação metodológica. Desse modo, o CORPOCIDADE 4 parte dos enfoques centrais da pesquisa –historiografia, apreensão crítica e experiência estético-corporal – para propor três diferentes planos de compreensão da complexidade da experiência urbana, cada qual incluindo uma tríade de aspectos coimplicados: um tipo, um modo e um campo, assim distribuídos: 1. subjetividade, corpo, arte; 2. alteridade, imagem, etnografia e 3.memória, narração, história. Atravessando esses três planos, uma outra tríade de aspectos da apreensão da cidade se inclui no processo como um plano transversal de problematização: experiência, sujeito, transmissão.

O encontro CORPOCIDADE 4 – Experiências de Apreensão da Cidade deu assim continuidade aos debates realizados nas edições anteriores, em torno do processo de espetacularização das cidades contemporâneas e a consequente pacificação dos espaços públicos, propondo um formato de encontro fundado na ideia de composição coletiva: um modo de abordagem sobre o complexo engendramento das inúmeras formas de divergência que estão em disputa nas diferentes narrativas da experiência urbana, baseado no exercício de articulação entre os diferentes conteúdos dessa trama, numa dinâmica de estudo intensivo sobre as possibilidades de composição conjunta de constelações de ideias sobre experiências de apreensão da cidade.

Contato

Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia
Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo
Laboratório Urbano [Gabinete 4]

Rua Caetano Moura, 121 – Federação
CEP: 40210-905 – Salvador, Bahia, Brasil

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